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Os benefícios da ficção científica para a ciência “real”

Gênero de grande sucesso em livros, filmes, quadrinhos, games etc., a ficção científica pode, ao contrário do que alguns cientistas acreditam, ajudar o grande público a entender melhor (e, assim, debater com mais propriedade) pesquisas e tecnologias “do mundo real”. A afirmação foi feita pela pesquisadora Joan Haran, do Centro de Aspectos Econômicos e Sociais de Genômica da Universidade de Cardiff (País de Gales).

Em seu estudo, Haran analisa tanto notícias e documentos oficiais relacionados a ciência e tecnologia (C&T) quanto histórias de ficção científica veiculadas em livros, programas de televisão e filmes. “Ao avaliar as diferentes maneiras como ciência e tecnologia são representadas em ambos os gêneros, pretendo demonstrar que os laços entre ‘ciência de fato’ e ‘ficção científica’ não são definitivos e mudam com o tempo”, explica.

“Ficção científica muitas vezes é mal vista por cientistas, mas ‘disparar’ nossa imaginação sobre C&T é absolutamente vital”, avalia Haren. Pesquisadores têm receio de que obras de ficção científica possam distorcer a visão que as pessoas “de fora” têm sobre as reais possibilidades da ciência. Segundo Haren, contudo, o público que consome essas obras é capaz de fazer a distinção entre a realidade e a especulação puramente fantasiosa. Além disso, ela lembra que, quando um cientista tenta explicar os benefícios que sua pesquisa poderá trazer no futuro, ele próprio está fazendo uma especulação – e isso não é necessariamente um problema.

Ciência (especulativa) em debate

A ideia de explicar ao público não especialista como pesquisas são realizadas e quais seus propósitos é defendida por muitos cientistas, inclusive por Haren. “Contudo”, ela aponta, “esta não é a única forma de pensar sobre a ciência na sociedade. De fato, se feita isoladamente, pode até atrapalhar, caso nos encoraje a pensar na ciência como algo à parte”.

A ciência, diz Haren, não acontece apenas nos laboratórios. “Ela faz parte da maneira como trabalhamos, nos divertimos e consumimos diariamente”.

Como exemplos de obras de ficção que ajudam a aproximar a ciência e o público leigo, ela cita Admirável Mundo Novo, na qual o autor, Aldus Huxley, imaginou uma tecnologia reprodutiva usada para gerar pessoas destinadas a desempenhar papéis sociais específicos, sem liberdade para escolher um meio de vida; e Woman on the Edge of Time (sem edição em português), de Marge Piercy, em que uma tecnologia parecida é usada para criar uma sociedade mais justa e igualitária do que as que existem hoje. Não chegamos a nenhum dos cenários sociais imaginados, mas a fertilização in vitro (e outros métodos artificiais de reprodução humana) se tornaram realidade.

Embora não tenham sido “profecias” bem sucedidas, as duas obras, nas palavras de Haren, “imaginaram os impactos sociais e culturais da ciência e da tecnologia antes que fatos tecnológicos e científicos sobre o tema estivessem plenamente estabelecidos”. O primeiro “bebê de proveta” nasceu 45 anos depois de Huxley ter escrito a obra. Nesse intervalo, lembra a pesquisadora, os leitores (ou quem assistiu às adaptações do livro para a televisão e o cinema) puderam refletir sobre o que uma tecnologia reprodutiva poderia eventualmente causar em diferentes contextos sociais.

“Eu espero que esse ‘insight’ possa ajudar as pessoas a conversar sobre futuros científicos e tecnológicos que digam respeito a elas, mesmo que não sintam que estão com todos os fatos em mãos”, finaliza Haren.[io9] [Wales Online]

Um comentário

  1. gostaria de receber todos esses posts em meu email

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