Dando asas à informação

Foi preso na China? Contrate um dublê para servir tempo para você

À direita, o alegado “dublê” de Hu Bin (à esquerda), rico que matou um pedestre na China

Se você acha que o sistema jurídico do Brasil é corrupto (e certas coisas nos fazem ter a certeza de que é), saiba que não é o único. Por mais absurdo que pareça, na China, casos de ricos pagando dublês para servirem tempo na prisão por eles são bem documentados.

Aparentemente, os ricos na China podem fugir de qualquer coisa, até da prisão (lembra algum outro país?), mas claro, eles tem que estar dispostos a dar embora uma pequena fração de sua fortuna.

Claro que isso não é muito surpreendente, considerando que mesmo países “desenvolvidos”, países onde o sistema jurídico é considerado imparcial, os ricos e famosos frequentemente desfrutam de uma clemência ignorada ao resto dos reles mortais.

Mas, na China, o cúmulo atingiu proporções incomparáveis: as pessoas ricas aparentemente podem contratar outras para ir para a prisão em seu lugar. De acordo com um oficial de polícia, a prática “não é comum, mas não é rara também”.

Mais: a situação existe há centenas de anos, porém só se tornou popular em 2009, quando vários casos foram descobertos ao mesmo tempo, e discutidos online. A prática tornou-se tão corriqueira que tem até nome:
ding zui. Ding significa “substituir” e zui significa “crime”, ou seja, “criminoso substituto”.

Este tipo de coisa aparentemente tem sido parte da cultura chinesa há séculos, e foi uma das primeiras coisas que os ocidentais relataram sobre o sistema legal do país. Em 1899, Ernest Alabaster, um estudioso do direito penal, escreveu que os tribunais “permitiam” que os criminosos reais contratassem substitutos, e que tais coisas “aconteciam frequentemente”.

Em 1895, o missionário George Mackay também descreveu a prática observando que “era um segredo aberto que estes homens não tinham nada a ver com o caso, mas foram subornados para vestir a ‘canga’ por seis semanas”.

Por incrível que pareça, os criminosos substitutos poderiam até ser contratados para execuções. Afinal, se uma família estava morrendo de fome, os pais aceitavam morrer para “salvar” suas crianças.

Dentre os casos mais recentes que tem alertado a população para a prática, temos o presidente-executivo de um hospital que causou um acidente de trânsito fatal, e contratou o pai de um empregado para se passar por ele na cadeia. Em outro caso, um homem dirigindo sem licença que causou a morte de um motociclista contratou alguém para levar a culpa pelo acidente por apenas US$ 8.000 (cerca de R$ 16 mil). Esse ano, o proprietário de uma empresa de demolição que ilegalmente demoliu uma casa contratou um homem pobre para ser seu dublê de corpo em tribunal e prometeu-lhe 31 dólares (cerca de R$ 62) para cada dia passado na prisão.

Mas parece que foi o caso de Hu Bin, um rico de 20 anos que matou um pedestre enquanto fazia corridas de rua em Hangzhou que realmente chamou a atenção para o fenômeno conhecido como ding zui.

Fotos de Hu e seus amigos ricos fumando e rindo enquanto esperavam a polícia chegar na cena causaram indignação pública. Isso não foi nada comparado à alegação de que o homem que apareceu no tribunal e cumpriu a pena de três anos não era Hu, mas um dublê de corpo. Fotos do homem preso em cena e daquele que apareceu no tribunal foram comparadas pelos internautas chineses, e a maioria concordou que não era a mesma pessoa.

Embora nunca tenha sido provado que Hu Bin contratou um dublê (o que deveria ser bem fácil, a partir de uma simples digital), mais revoltante ainda é o fato de sua sentença ser tão branda: apenas 3 anos por matar uma pessoa é bizarro o suficiente, considerando que em outros casos de acidentes semelhantes pessoas já chegaram a ser condenadas à morte.[OddityCentral]

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