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Quão longe vai sua memória? Quando começamos a guardar as primeiras lembranças

Se você tentar se lembrar de como era quando ainda era um bebê, provavelmente não vai se lembrar de nada, ou de muito pouca coisa. Porque é tão difícil guardar memórias nos primeiros anos de vida? Quando começamos a guardar lembranças?

Segundo especialistas, nossas primeiras lembranças palpáveis acontecem, em média, quando atingimos 3 anos e meio de idade. Nessa época, o hipocampo, uma parte do cérebro usada para armazenar memórias, já está devidamente amadurecida para lidar com essa tarefa. Nossas habilidades verbais e senso de identidade própria também amadurecem acerca dessa idade.

“Sabemos que a linguagem pode ser muito importante para as memórias, porque ter palavras para nossas experiências significa que podemos falar sobre elas, repeti-las e estruturá-las”, diz Julie Gurner, psicóloga americana.

Além dessa teoria principal, outros estudos tentam desvendar os mistérios das primeiras memórias. Ano passado, pesquisadores da Universidade Memorial de Newfoundland, no Canadá, descobriram que as primeiras lembranças de crianças da escola primária “mudam” conforme elas amadurecem (por isso você talvez não tenha memórias tão antigas, de quando tinha 3 anos e meio, por exemplo). Somente quando elas atingem 10 anos de idade é que começam a ter as recordações singulares que os adultos carregam pela vida.

Outra pesquisa de 2003 notou que as mulheres parecem formar suas primeiras memórias permanentes dois a três meses mais cedo do que os homens e, para ambos os sexos, as primeiras memórias tendem a ser visuais e positivas, não verbais ou negativas.

“Fortes eventos emocionais ficam em nossas memórias, tanto bons quanto maus. Psicólogos continuam examinando como nossas predisposições, traços, meio ambiente e biologia determinam como guardamos nossas próprias experiências”, conta Gurner.

Por alguma razão, um momento solitário acaba sendo selecionado e carimbado em nossos cérebros como o primeiro dia de nossas experiências de vida. Em certo sentido, essa memória é o nosso “aniversário cognitivo”.

Filmes, roteiros ou histórias incríveis às vezes parecem mostrar lembranças dramáticas como as primeiras da vida de uma pessoa: ter presenciado um assassinato, ou os pais brigando, ou qualquer outra coisa que marcou extremamente a personagem principal, e faz diferença na vida dela quando adulta. Mas não é sempre é assim.

Muitas das primeiras lembranças das pessoas são mundanas: imagens soltas de nosso passado que não parecem carregar nenhum peso emocional especial.

Minha primeira lembrança é de um pavimento. O chão de cimento cinza, os morros em volta. Muitas pessoas passam ao meu lado. À minha direita, vejo outras pessoas apoiadas em uma cerca, olhando para baixo. Vou até onde elas estão, e fico maravilhada. Ali, tão perto de mim, tem uma praia, bem pequena. A água bate e volta, e pessoas minúsculas estão de roupas de banho fazendo suas coisas.

Não, eu não estou no alto de algum lugar olhando uma praia de verdade. Estou olhando para uma “maquete” de praia, e sei que não são pessoas de verdade. Ainda assim, estou fascinada.

Essa lembrança é uma cena do Mini Mundo, parque que fica em Gramado, no Rio Grande do Sul. Quando eu tinha
6 anos, fiz uma viagem ao sul do país com meus pais, saindo do interior de São Paulo. Tenho muitas memórias desses dias, como uma parada de carro em um posto, na qual vimos pela TV a notícia do acidente de avião que matou os integrantes da banda Mamonas Assassinas no auge de suas carreiras.

De acordo com Gurner, enquanto tais fragmentos da nossa memória possam parecer não ter qualquer significado maior décadas mais tarde, muitas vezes eles carregam algum tipo de peso subconsciente.

“Talvez você se lembre de algo que veja como um trecho insignificante de memória porque ele pode ser o único vestígio deixado de uma memória que provavelmente foi mais extensa em outro momento”, diz Gurner.

“Muitas vezes, especialmente em memórias de infância ou de antes de desenvolver a linguagem, temos dificuldade em manter o contexto das lembranças. Nossas memórias podem desaparecer, e se elas não desaparecem, às vezes, ficamos só com pedaços”.

Gurner acredita que compartilhar uma primeira memória é significativo, porque revela algo unicamente pessoal sobre nós para os outros. “As primeiras lembranças vão além das apresentações da vida cotidiana – da carreira, roupas e status – e revelam algo distintamente pessoal e único sobre você”, diz.[MSN]

Um comentário

  1. Minha primeira lembrança é a do dia em que saí com meu pai e voltei com minha mãe…

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