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Sem-teto francês torna-se um autor best-seller depois de escrever livro sobre sua experiência

Jean-Marie-Roughol

Depois de ser sem-teto por quase três décadas, a vida de Jean-Marie Roughol está prestes a mudar para melhor. As memórias do morador de rua de 47 anos tornaram-se um livro best-seller na França nesta temporada, vendendo cerca de 50.000 cópias.

Com 176 páginas, a obra é intitulada “Je tape la manche: Une vie dans la rue” (em tradução literal, algo como “Minha experiência como um mendigo: a vida nas ruas”).

Roughol conta sua história, de sua infância difícil até ir parar nas ruas de Paris. Ele se lembra de como foi abandonado pela mãe e criado por um pai alcoólatra, terminando sem-teto em seus vinte anos depois de perder seu emprego como garçom.

Roughol começou a escrever o livro há dois anos, sentado em bancos de parque, fazendo anotações em cadernos escolares. Ele conseguiu ajuda com a escrita e edição de um amigo de longa data, o ex-ministro francês do interior, Jean-Louis Debré.

Os dois se conheceram há muitos anos quando Roughol se ofereceu para cuidar da bicicleta de Debré enquanto ele fazia compras em Champs-Élysées, um evento que também está incluído no livro. Ele compara ter conhecido Debré com ganhar na loteria.

Debré foi quem desafiou Jean Marie Roughol a escrever o livro, depois de ter ouvido dois transeuntes sussurrando um para o outro: “Você viu que Debré está falando com um mendigo?”.

Chocado com a reação deles, disse a seu amigo sem-teto que ele podia mostrar aquelas pessoas pretensiosas seu erro de julgamento ao escrever um livro sobre sua vida.

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Roughol disse a repórteres franceses que estava com medo de colocar as palavras no papel no início, porque não pensava coisas boas sobre si mesmo. Ele só conseguia pensar em seus defeitos, e o fato de que não tinha frequentado muito a escola quando criança não servia de motivação também. Mas, no fim das contas, decidiu fazê-lo. Ele se encontrava com Debré em cafés, entregava suas anotações, e o ex-ministro as transcrevia.

As páginas finais revelam contos sobre sua infância caótica, noites dormindo nas ruas ou em parques, amizades com outras pessoas sem-teto, e suas brigas para defender seu território.

Desde o lançamento do livro, Roughol tem sido destaque em vários programas de TV e jornais de todo o mundo. Ele já conseguiu comprar um smartphone para manter-se atualizado das notícias, mas ainda vive nas ruas, à espera dos lucros do livro para arrumar um apartamento – ele só vai começar a receber os royalties em 10 meses.

Nesse meio tempo, Roughol é uma celebridade sem um lar. “As pessoas escrevem para mim de todos os cantos e sou parado todos os dias por pessoas que leram meu livro”, diz. “Na semana passada eu fui levado para um restaurante por um homem do Tennessee que comprou 15 cópias do meu livro e uma outra pessoa veio da Suíça com chocolate para mim”.

Mas o momento mais especial de sua fama foi quando ele reencontrou um irmão há muito perdido. “Ele me viu na TV e não sabia que eu era sem-teto”, conta. “Quando você está nas ruas, você é humilhado e só conta consigo mesmo. Agora eu tenho sobrinhos e sobrinhas que querem me conhecer – imagine! – quando sempre fui sozinho”.

Roughol espera que seu livro ajude a mudar a forma como as pessoas olham para os desabrigados, e chame a atenção para a situação das mulheres sem-teto. “O seu número está crescendo e é ainda mais difícil para elas. Elas são atacadas, alguns se aproveitam de sua fraqueza. É escandaloso”, argumenta.

Seu sonho é abrir sua própria creperia. Esperamos que ele consiga. [OddityCentral]

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